quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Vida puta

No dia em que você acordar com ligação da vizinha, dizendo que já falou com teu marido sobre o vazamento no apê dela, e tiver que chamar o encanador, pedir orçamento e escolher os azulejos do banheiro, pode ter certeza: você é gente grande.
(A parte que a vizinha idosa falou que você é só uma menina fica de fora, ok?)
Hoje me peguei pensando sobre isso: ninguém me disse "agora você é gente grande, Amanda". Acho que tudo começou com eu ajudando a pagar (bem pouco, e porque eu queria) a conta do mercadinho da esquina, quando morava com meus pais. Aí meu micro-salário de estagiária, mais o trabalho de editora de imagem de fim de semana pagavam minhas festas, meus táxis, meus materias pra faculdade.
De repente, eu estava num apartamento meu - e da minha irmã, but still - pagando contas, ficando 1 mês à luz de velas por não ter lembrado de que, bem, a conta precisa ser paga, mesmo que o proprietário anterior do apartamento tenha débito em conta da CEEE.

Aliás, antigo proprietário do 303, caso você leia isso, muito obrigada por ter pago sem querer a minha conta de luz por uns meses e nunca ter cobrado isso.

Pausa. Amigos, festas, contas, miojos, congelados e comida que a mãe manda pra vocês. Pausa.

Eu estou no apartamento do cara que conheci numa festa há 3 meses, e a gente divide as contas também, agora do apartamento dele. Não fui pedida em casamento, só fui levando roupas e mais roupas e nunca mais voltei pra minha casa, meu quarto virou depósito. Saímos menos pra ~balada~ porque a coisa não tá fácil, e no verão o apartamento se infesta de baratas, apesar de limpinho. Mesmo assim, cerveja e guacamole garantem a felicidade do jovem casal num domingo de 80ºC em Porto Alegre. Vocês sofrem com cupins, mas se divertem pra cacete com o futebol de quarta-feira numa TV 14".

Pausa. Pequeno aperto financeiro e voltei pro meu apartamento antigo, carregando móveis e eletrodomésticos de uma quadra pra outra. Alguns, nas costas. Dessa vez, além de móveis e eletrodomésticos, o namorado veio junto. Pausa.

Aí eu acordei hoje, faltando 6 dias pro meu aniversário de 24, me dando conta de que, de fato, eu sou adulta. Ninguém me explicou como seria, ninguém me disse que o banheiro eventualmente ia dar infiltração no andar abaixo, e nem que estar com as contas em dia não significa mais estar tranquila com grana: na vida adulta, essa puta, acidentes acontecem e a gente precisa ter reserva de dinheiro, de paciência. A gente precisa ficar calma pra não acabar enlouquecendo (quem leu o primeiro post do blog sabe que eu tenho conhecimento de causa).
Hoje eu desejei loucamente morar com a minha mãe, deixar que ela ligasse pro encanador e que meu pai pagasse. Acontece que se eu morasse com a minha mãe e meu pai ainda, não teria como escolher o azulejo do banheiro com o meu marido, nem poderia discutir com ele se o preço é justo ou não. Não teria tido o guacamole, as viagens, as risadas, o amor todo.

A vida adulta, essa puta, ela te dá escolhas, e isso é realmente interessante quando passa o susto.

Um comentário:

  1. Nunca pensei que poderia me identificar tanto com você. Descobri isso só agora, lendo esse blog e notando que me sinto em uma situação semelhante, senão igual a sua. Também moro com um namorado, em um JK que deve ter uns 30m² e enfrentando o que, eu acredito, seja a "vida adulta".

    Post muito bom, sério.

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